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Tuesday, May 13, 2014

É difícil falar de animais de estimação sem correr o risco de soar lamechas ou até algo idiota. Afinal - pensará a maioria das pessoas - como é que um ser humano pode pensar que um animal tem o mesmo valor que outro ser humano?

Talvez não interesse a ninguém para além de mim própria e de quem seguiu a história, sendo que 2 das 5 pessoas que a seguiram já cá não estão para contá-la. Mesmo assim, vou contar a história da Yellow, nem que seja para não me esquecer.

A Yellow, há 14 anos, estava num caixote de cartão com os irmãos. Era uma manhã de Domingo, lembro-me do dia da semana porque era o dia em que estava sempre com o meu pai. Naquela altura, a minha avó juntava-se a nós no pequeno-almoço. O meu avô tinha morrido há cerca de 1 mês e eu não falava muito e comia menos do que falava. Quando saímos da Lido, vi o caixote cheio de cachorrinhos e sorri.

A minha avó, que nunca foi muito dada a fazer-me vontades, olhou para mim e perguntou-me se eu queria um dos cachorros. Encolhi os ombros, talvez por não acreditar que ao fim de quase 18 anos (toda a minha vida tinha pedido um cão), ela teria cedido. Ou talvez porque não havia nada, naquela altura, que me fizesse sorrir. Mas a Yellow fez. E voltei a sorrir ao mesmo tempo que encolhi os ombros. A minha avó apressou-se a dizer ao meu pai "Fernando, pegue num cachorro e pague à senhora, por favor." A minha avó tinha aquele ar muito seguro de si, muito forte e altiva, com os olhos muito azuis, a pele muito branca e o cabelo de um dourado acinzentado sem cabelos brancos, uma cor que nunca mais voltei a ver em ninguém. Mas mesmo com aquele ar tão seguro, não foi capaz de escolher um dos cachorros em detrimento dos outros e deu ao meu pai essa tarefa. O meu pai, baixo, magro, com um ar algo frágil mas muito, imensamente, mais forte do que aparentava, nos seus olhos profundamente castanhos, virou-se de costas para o caixote, lançou o braço e tirou de lá a que seria baptizada de Yellow.

Nunca me irei esquecer da cara da minha mãe a abanar a cabeça. A minha mãe é a pessoa mais forte e mais doce que conheço, a par com outra pessoa também única. Com uns olhos muito azuis mas muito diferentes dos da minha avó, baixinha como o meu pai, foi a única que desaprovou a ideia de ter um cão, fosse qual fosse a motivação da minha avó para ceder a um pedido que já tinha desistido de fazer.

A Yellow, de pelo amarelo e encaracolado, com olhos doces, cabia na palma da minha mão, uma mão magra e não muito grande. Levei a Yellow para casa da minha mãe e da minha avó, telefonei à minha irmã, já casada, a dizer da vitória que era das duas, afinal o pedido também tinha sido dela durante anos a fio. Durante semanas, tive medo de pisar a Yellow pelos corredores daquela casa enorme, muito maior sem o meu avô e sem a minha irmã que tinha casado e saído de lá. O meu pai já tinha saído há muitos anos, estava habituada aos nossos Domingos felizes e sabia-o presente.

A Yellow acompanhou-me os anos da Faculdade, em que ficava a fazer os projectos no chão da sala de estudo e ela ficava ao meu lado. Recebia-me sempre com uma corrida apressada, muitos latidos e lambidelas, numa alegria contagiante. Ficou ao meu lado sempre que me viu triste, sem latidos, só com companhia, com a cabeça no meu colo mas quem se sentia ao colo era eu. Presenciou os meus primeiros passos a trabalhar e viu-me partir, pouco depois da minha avó. Viu também a Farrusca partir. A minha avó e a Farrusca partiram para sempre. Eu, voltei muitas vezes, de visita. E a Yellow continuou a receber-me sempre com o mesmo entusiasmo e alegria de cada reencontro. Com aquela casa enorme de tal modo vazia, a minha mãe e a Yellow, companheiras improváveis, foram para uma casa pequena. A Yellow acompanhou a minha mãe num mês em que ela teve que ficar em casa, com um pé partido numa fractura exposta. Nunca saiu do lado da minha mãe, com uma dedicação e doçura que não vejo em todos os animais, a Yellow, nem que seja aos meus olhos, é única. Desde então que não sai do lado dela, adoptou-a como seu membro favorito da família. E a minha mãe adoptou-a no seu coração. Há quase um ano, a Yellow viu mais um membro da família partir, o meu pai. E, mais uma vez, ficou ao lado da minha mãe na minha ausência intermitente e em mais uma ausência permanente.

Há uns meses, a Yellow começou a ficar doente. Foi operada, resistiu. É uma resistente bondosa que sabe que precisamos dela. Mas agora começa a dar sinais que quer ir fazer companhia aos membros da família que a foram deixando, que já está demasiado cansada, por mais que tente ficar ao lado da minha mãe de quem tanto gosta. E lá fico eu a ver mais um membro da família partir. E, desta vez, a minha mãe fica sozinha a ver mais um membro da família partir. Um membro da família que não adoptou ao inicio mas que agora é absolutamente essencial na sua vida.

Contei uma parte da história da Yellow, nem que seja para não me esquecer. Para mim, a Yellow é um membro da família. Não quero esquecer-me das histórias da minha família que insiste em partir. Podemos não ser eternos mas as histórias ficam. A Yellow fez e faz parte da minha história. Tal como o meu avô, nos seus cabelos imaculadamente brancos, mãos pesadas e olhar profundo. A minha avó, na sua elegância que a uns parecia doce mas a mim parecia-me simplesmente forte. A Farrusca, preta e branca, que era uma gata que ria. E o meu pai, que não preciso fechar os olhos para conseguir descrever.

6 comments:

  1. eu não acho nada idiota. passei por uma situação idêntica e também escrevi, mas nunca publiquei. fez-me recordar coisas boas e ajudou a pôr certas coisas em ordem.
    gostei muito de ler e espero que corra tudo bem, na medida do possível.

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  2. achei lindo o teu texto, identifiquei-me e fiquei de lágrima no olho. *

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    1. muito obrigada. infelizmente, a Yellow não resistiu mais...

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